Li hoje um artigo muito interessante envolvendo uma comparação entre a luta contra o preconceito racial nos EUA e o proconceito atual contra o uso da bicicleta no Brasil.
Ia fazer um comentário por lá, mas fiquei receioso de alguma reação alegando dificuldade de entendimento, como à vezes acontece com alguns comentários meus, resolvi fazer um post por aqui mesmo. Afinal, são apenas, percepções e reflexões, sujeitas a verificação, não importando muito, para mim, onde estejam lançadas. Então, passando ao comentário propriamente dito:
Essa analogia ou paralelo de preconceitos está muito bem formulado, no sentido de permitir a elucidação da sua existência. Excelente artigo.
O preconceito foi construído paulatinamente, relegando o uso da bicicleta como meio de locomoção às camadas mais pobres da população e reservando a sua qualidade esportiva à satisfação do instinto predador (no sentido de Veblen) pelas camadas dominantes. Essa separação não acontece mais hoje em dia.
Tentando ir um pouco mais fundo no tema, há uma diferença na discriminação contemporânea, ela é fluida, não é intrínseca às pessoas em si, mas depende de estar ou não na posse e "controle" (entre aspas porque tantos condutores são bem descontrolados) da grande máquina móvel de transporte chamada veículo motorizado.
Sendo assim, ela se torna induzida pelo sistema político/ econômico/ administrativo, remove as escolhas de quem potencialmente poderia optar pela bicicleta.
A bicicletada é, sim, importante meio de demonstrar a existência do preconceito por parte das instituições e o absurdo de sua oficialização, contra o direito humano básico de locomoção com segurança. Os recursos públicos são usados no sentido de reforçar o preconceito contra quem não pode ou não quer se motorizar, ou seja, quase 30% da população urbana brasileira, mediante aplicação exclusiva em sistemas viários dedicados unicamente a quem esteja motorizado. Mesmo que alguém não queira motorizar-se, não encontrará uma resposta satisfatória do poder público. Mesmo quem tem carro e quer reduzir seu uso encontrará dificuldades de infraestrutura segura. Não depende de classe econômica: o motorista de ônibus que mata o executivo de bicicleta, por já ter incorporado o preconceito, tenta consagrá-lo e legitimá-lo em face do grupo motorizado dominante do qual faz parte e no qual encontra proteção. Contra toda expectativa de imparcialidade que se possa constituir em face do Ministério Público e partes do Judiciário. Talvez, quando a quantidade de carros diminuir ou a sociedade conseguir outros rumos, os condutores de ônibus deixem de se aliar a esse grupo.
Os caras ainda estão, todos, no século XX, que já passou, já foi, já era.
Quanto ao tempo para a mudança, é difícil fazer projeções. Contudo, se tivermos por base a previsão de 2010 feita pela Agência Internacional de Energia (IEA), já em 2020 a produção de petróleo pelas fontes conhecidas já se terão reduzido a 2/3 da produção de 2006, e em 2035 a 1/3. Portanto, se não acontecer um relevante progresso técnico antes disso, ou na produção ou no consumo, a tendência pode ser de que as pessoas estarão andando de bicicleta bem antes desses 50 anos, por incapacidade de arcar com os custos dos combustíveis. A possibilidade de ampliação da fome também não pode ser descartada. Não entendo como ninguém aprofunda o debate sobre isso.
Sim, é muito importante continuar dizendo que o rei está nu!!!! Dá-lhe bicicletada.
Feliz 2012!
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